Milhões em bens apreendidos à medida em que a Polícia Federal do Brasil concentra sua atenção em derrubar os chefes do tráfico

O Brasil é o maior país da América do Sul, abrangendo uma área de 3.287.956 quilômetros quadrados. É também o país que possui a terceira maior fronteira terrestre do mundo, com 16.885 quilômetros, fazendo fronteira com quase todos os países da América do Sul. Ademais, possui 7.000 quilômetros de fronteira marítima e é fácil constatar que proteger as fronteiras do Brasil é um trabalho impossível, e é por isso que o país se encontra entre os principais focos de contrabando de drogas mais rentáveis do mundo, um valor que a Statista fixa em cerca de US$20 bilhões por ano. 


No passado, a Polícia Federal do Brasil concentrou-se na apreensão de grandes carregamentos de drogas que atravessavam regularmente as fronteiras do país. Isso certamente ajudou a manter grandes quantidades de cocaína e outras drogas ilícitas fora das ruas, mas essas apreensões nunca levam àqueles que figuram no topo da pirâmide—os chefes do tráfico que controlam as operações, não só no Brasil, mas em todo o mundo. 


No entanto, tudo isso mudou em 2015, quando o Delegado Elvis Secco, um investigador veterano com 24 anos de experiência e ex-agente da Polícia Federal, foi convidado a chefiar o GEIS (Grupo Especial de Investigações Sensíveis), uma equipe especial dedicada à investigação de grandes organizações criminosas. 


Ao assumir o comando da GEIS, Secco transformou, quase sozinho, a forma com que a Polícia Federal lidava com as investigações de contrabando de drogas, concentrando os esforços de suas equipes nos bens dos chefes do tráfico, em vez de concentrar-se nos carregamentos de drogas  servindo-se de tecnologia digital para rastrear (e apreender/bloquear) suas contas bancárias e bens físicos. 


"Sem tecnologia, essa luta é impossível.” 

Quando Secco e sua equipe começaram a investigar as operações de lavagem de dinheiro ligadas a essas grandes organizações, rapidamente se tornou evidente que não seria possível solucionar o problema do narcotráfico no Brasil apreendendo carregamentos aqui e ali (meras perdas operacionais para grandes organizações criminosas). 

 

"Eu precisava chegar ao topo da pirâmide", disse Secco em uma entrevista recente, " mas como? ... A apreensão de drogas levou-me aos motoristas e aos pilotos, mas os verdadeiros reis estavam muito, muito distantes.” Localizar os líderes através dos seus caminhos de lavagem de dinheiro e depois atacar os seus bens pessoais era a resposta, mas não seria fácil. 


Secco sabia que a Inteligência Digital (DI) — dados que são acessados e coletados a partir de fontes digitais e tipos de dados (smartphones, computadores e a nuvem) e o processo pelo qual as agências acessam, gerenciam e alavancam dados para executar mais eficientemente suas operações — seria fundamental.

No entanto, transformar sua organização para cumprir essa nova missão, levaria tempo, tecnologia, treinamento e uma completa revisão da forma como as investigações contra os traficantes de drogas eram realizadas, mas Elvis Secco era um homem com uma missão.

"Através da tecnologia e da informação, podemos chegar aos núcleos financeiros. Todas as grandes organizações têm seus núcleos... O mais importante é identificar o núcleo responsável pelos movimentos financeiros.”


Transformando a Organização

Quando Secco chegou à sede da Polícia federal, em 2019 para assumir a direção da CGPRE (Coordenação-Geral para drogas e repressão ao Crime organizado), desenvolveu uma estratégia em três etapas para chegar aos chefões. Mudar o modo de pensar dos agentes envolvidos nas operações de tráfico de drogas foi o primeiro passo.


Trabalho em conjunto

Durante décadas, a guerra contra as drogas em todo o mundo se concentrou apenas na apreensão das mercadorias. Aliás, Secco se lembrou de que ocorria praticamente uma competição, com os países fazendo alarde da quantidade de toneladas de droga apreendida a cada ano. Como explicou Secco, perder um carregamento de drogas não significa nada para os chefes do tráfico, já que os outros carregamentos que chegam ao mercado (e há muitos deles) lhes pagam milhões. Dada a dimensão e a permeabilidade das fronteiras do Brasil, tentar interceptar carregamentos era muito complicado e um uso ineficiente de recursos.

O novo plano de Secco exigiria que os 13 agentes sob o seu comando evoluíssem. Eles agora se concentravam apenas na lavagem de dinheiro, usando tecnologia para levá-los até contas bancárias, imóveis, aeronaves e iates daqueles no topo, bens que poderiam, então, ser apreendidos.

"Eu vi, durante mais de 20 anos em minha carreira, os grandes chefes do tráfico ficarem mais ricos e mais poderosos", explicou. "A apreensão de drogas não é o caminho. A única maneira de chegar aos chefes do tráfico é através da lavagem de dinheiro, da descapitalização e da cooperação internacional. Isso lhe permite prender os chefes e quebrar a estrutura da organização.”

Através da tecnologia e da informação, podemos chegar aos núcleos financeiros. Todas as grandes organizações têm seus núcleos. Um núcleo, por exemplo, pode ser o responsável pela logística. Outro núcleo é responsável, por exemplo, por comprar as drogas na Bolívia, na Colômbia ou no Peru. Mas o mais importante é identificar o núcleo responsável pelos movimentos financeiros.”

E, pela primeira vez, os membros da equipe seriam obrigados a fazer isso juntos, compartilhando informações e trabalhando como uma equipe unificada para levar a cabo investigações de forma mais rápida.

"A apreensão de drogas não é o caminho. A única maneira de chegar aos chefes do tráfico é através da lavagem de dinheiro, da descapitalização e da cooperação internacional. Isso lhe permite prender os chefes e quebrar a estrutura da organização.”


Renovando o equipamento de trabalho

Para encontrar os chefes de tráfico e rastrear seus bens, as equipes de Secco precisariam das soluções de informação digital corretas. Ele começou equipando todas as suas unidades com um conjunto de ferramentas, incluindo Cellebrite UFED, para lidar com a coleta de dados de celulares, computadores e de outros dispositivos digitais. O UFED Cloud foi adicionado para acessar e coletar da nuvem informações internas valiosas (tratando-se de domínio público e privado, dados de redes sociais, mensagens instantâneas, armazenamento de arquivos, páginas da Web e outros conteúdos). Ligar os pontos entre indivíduos e transações exigiria uma solução analítica poderosa, então a CGPRE investiu em Cellebrite Pathfinder.


Trabalhando além das fronteiras

O próximo passo na estratégia de Secco foi garantir a cooperação internacional nas investigações. Mesmo nos primeiros estágios de investigação dos esquemas de lavagem de dinheiro ligados aos traficantes de drogas, era óbvio que as organizações envolvidas estavam operando em escala global. Aqueles no topo tinham contas e bens físicos espalhados pelo mundo. Sem a cooperação de agências policiais como a Europol, a apreensão de bens e de indivíduos além das fronteiras do Brasil seria impossível.

Uma vez que suas equipes começaram a escavar, a cooperação chegou rapidamente e hoje, muitas das grandes operações com as quais Secco e suas equipes estão envolvidos, são investigadas em colaboração com agências policiais em muitos outros países. Um caso recente, a Operação Enterprise, é um bom exemplo da cooperação que Secco recebeu de várias nações para levar a investigação a bom termo.

 

Seguir o dinheiro compensa

A Enterprise foi o ponto alto de dois anos de trabalho de investigação que começou com uma apreensão de 776 kg de cocaína a caminho de Antuérpia, na Bélgica. Trabalhando com equipes de nove países diferentes, usando soluções Cellebrite DI, as equipes da CGPRE começaram lentamente a descascar as camadas da cebola (dinheiro).

À medida que a investigação se desenrolava, eles foram capazes de identificar os participantes e as principais contas bancárias. A análise da nuvem permitiu que as equipes rastreassem outros bens, incluindo propriedades imobiliárias, carros, aeronaves e iates. A Pathfinder permitiu que começassem a juntar provas diferentes, o que levou a uma série de outros criminosos envolvidos.

Quando a operação foi ultimada, 45 indivíduos haviam sido presos, e os bens apreendidos foram avaliados em dezenas de milhões de dólares. "Na bagageira de uma van em Portugal, foram descobertos cerca de 12 milhões de euros", disse Secco. "E em Málaga, na Espanha, o chefe do tráfico tinha uma casa de luxo, no valor de cerca de 2,5 milhões de euros ... Ele tinha um avião, no valor de 20 milhões de dólares. Então, a operação Enterprise era muito, muito importante para nós.”

O chefe do tráfico fugiu para um país europeu, onde está atualmente protegido da extradição, mas todos os seus tenentes foram detidos, juntamente com muitos outros.

"Todos os 45 elementos eram muito importantes para a organização", explicou Secco, " porque eles eram responsáveis pela lavagem do dinheiro, pela logística do envio das drogas e por colocar seus nomes nos bens. A identificação desses elementos era muito importante para quebrar a organização.”

"Nós imaginamos essas organizações como uma pirâmide. Se prendermos os elementos na base da pirâmide, nada de muito importante acontece. Mas quando prendemos as pessoas no topo da pirâmide, ela se quebra. Então o chefe do tráfico fugiu, mas a estrutura está quebrada.”

Secco também explicou que os casos nunca são realmente encerrados porque continuam coletando e analisando informações de dispositivos digitais em sua posse, o que leva a pistas de outros criminosos e organizações que sua equipe possa vir a seguir.

Em um recente acompanhamento da Operação Enterprise, o Middle East Monitor relatou que Assad Khalil Kiwan, libanês naturalizado cidadão brasileiro, suspeito de ser um grande stakeholder no crime organizado, em operações que estavam usando os portos brasileiros para exportar grandes quantidades de cocaína para a Europa, foi preso pela Polícia Federal brasileira. Cerca de 149 ordens de busca e apreensão foram executadas no Brasil, com oito mandados de prisão emitidos na Espanha, Colômbia, Portugal e Emirados Árabes Unidos.

No total, a investigação policial apreendeu US$ 400 milhões em bens, incluindo 50 toneladas de cocaína.

Outras investigações realizadas pelos membros da equipe de Secco e pela Polícia Federal produziram resultados igualmente impressionantes:

A operação Caixa Forte II, que começou com o confisco de um único celular, levou a mandados de prisão, a 201 mandados de busca e apreensão, e à apreensão de bens totalizando 252 milhões de reais (US$46 milhões). Essa operação atingiu o coração do núcleo financeiro da organização que Secco vinha investigando.

Usando soluções Cellebrite para coletar e analisar dados do telefone apreendido, os investigadores foram capazes de rastrear as comunicações entre os líderes, os pagadores e os operadores para identificar as transferências de dinheiro e de bens. Os números das contas bancárias, as ordens de pagamento do líder da organização e os nomes dos que estavam sendo pagos e quem os estava pagando, todos conectados através do Cellebrite Pathfinder.

Como é típico nestes casos, os bens raramente são registrados no nome dos líderes da organização. No entanto, municiados com as informações da conta coletadas dos telefones, os investigadores puderam ir diretamente às autoridades de financiamento para solicitar os dados financeiros das contas listadas e simplesmente seguir a trilha de dinheiro até aqueles que estavam no topo.

A operação King of Crime (Rei do crime), identificou mais de 70 empresas e bloqueou contas bancárias cujos valores excediam R$ 730 milhões. Outros bens que haviam sido sequestrados da  organização criminosa incluem 9 motocicletas, 2 helicópteros, um iate, 3 barcos, 58 caminhões e 42 reboques e semirreboques, excedendo o valor de R$ 32 milhões.

A Operação Status, que envolvia a apreensão de bens de traficantes no Brasil e Paraguai, totalizou R$ 230 milhões (US$43,44 milhões) incluindo 42 propriedades, duas fazendas e 75 veículos, embarcações e aeronaves, cujo valor conjunto foi estimado em US$15 milhões.

A Operação Além-mar levou à apreensão de 42 caminhões, 35 propriedades, 7 aviões, 5 helicópteros e 1,5 toneladas de cocaína avaliada em R$ 62 milhões (US$ 11,3 milhões). A polícia brasileira também congelou contas bancárias avaliadas em R$ 100 milhões (US$18,3 milhões).

A operação Cavok incluiu a apreensão de R$ 40 milhões em bens (23 pequenas aeronaves, 4 propriedades rurais, um apartamento de luxo, 5 veículos, oito armas de fogo e 25 telefones celulares. Durante a operação, a polícia também confiscou cerca de US$30.000 em dinheiro e 36 peças de joias.

 "Se a Polícia Federal seguir esse caminho e os três temas principais — a descapitalização, a detenção dos chefes do tráfico e a busca de cooperação internacional —, penso que a Polícia Federal pode enfraquecer as organizações, não só no Brasil, mas em todo o mundo.”

 

Para onde vai o dinheiro

De acordo com a lei brasileira, os fundos gerados pela liquidação dos bens apreendidos são aplicados nos esforços de combate ao tráfico. Como explicou Secco, 40% do dinheiro apreendido volta para a Polícia federal para ser usado na promoção de seus esforços na luta contra as grandes organizações criminosas envolvidas no tráfico de drogas.

Os outros 60% vão para a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, onde ficam reservados para projetos relacionados à eliminação do tráfico de drogas. O SENAD é a Secretaria Nacional de políticas contra a droga e está ligado diretamente ao Ministério da Justiça.

Unidades da Polícia Federal, como a CGPRE, podem solicitar fundos do SENAD para qualquer projeto relacionado ao fim do tráfico de drogas, desde que possam deixar em evidência a sua necessidade. Recentemente, Secco recebeu US$ 30 milhões do SENAD para comprar barcos blindados para buscar traficantes que utilizam vias navegáveis brasileiras para transportar drogas.

Esse processo permite que as equipes financiem os esforços de combate ao narcotráfico no mais alto nível. Quanto mais ativos forem apreendidos, mais a Polícia federal pode buscar fundos para contribuir com os esforços de combate ao tráfico, e mais fracos se tornam os que estão no topo da pirâmide de contrabando de drogas.

"Nós imaginamos essas organizações como uma pirâmide. Se prendermos os elementos na base da pirâmide, nada de muito importante acontece. Mas quando prendemos as pessoas no topo da pirâmide, ela se quebra.”

Será que o tráfico de drogas alguma vez será interrompido? Provavelmente não. Mas Secco é otimista em relação ao futuro.

 

Perspectivas

Quando perguntado sobre como ele gostaria que a CGPRE fosse em cinco anos, Secco respondeu dizendo que quer plantar as sementes agora para que a polícia brasileira seja mais capaz de rastrear os esquemas de lavagem de dinheiro em andamento. Esta visão inclui esforços contínuos para aumentar a "capitalização", a apreensão de bens, prender mais chefes do tráfico e buscar cooperação internacional para atingir aqueles no topo da pirâmide de contrabando de drogas, cujas operações fora das fronteiras do Brasil continuam a assolar seu país e seu povo.

E, percebendo que seus recursos humanos podem continuar a ser limitados, Secco vê a tecnologia digital como o multiplicador de força que pode ajudá-lo a fazer muito mais enquanto otimiza o tempo e o talento dos membros de sua equipe.

Para isso, ele adquiriu a Cellebrite Premium, para acessar e coletar provas cruciais de telefones celulares de dispositivos iOS e Android high-end e a Cellebrite Commander para gerenciar as implantações de equipamentos e otimizar como essas ferramentas de inteligência digital são usadas.

A comunicação é outra área que Secco planeja aprimorar, em 2021. Até agora, membros da equipe da CGPRE têm se reunido regularmente para comparar e priorizar casos. No próximo ano, Secco planeja conectar todos através do Cellebrite Pathfinder. Isto permitirá que seus agentes compartilhem informações e colaborem em tempo real. Também proporcionará uma melhor forma para que Secco possa gerir os membros da sua equipe. Se ele vir que os investigadores estão duplicando esforços, seguindo os mesmos resultados para as mesmas contas bancárias, ele pode direcionar um para continuar a investigação e redistribuir o outro para que mais casos possam ser resolvidos.

"Eu tenho a esperança de que depois de deixar tudo isso, um dia, as sementes que plantei aqui farão a Polícia Federal mais forte. O foco na lavagem de dinheiro contra o tráfico de drogas tem que continuar.

 

"Se a Polícia Federal seguir por este caminho e der atenção aos três eixos principais da estratégia — a descapitalização, a detenção dos chefes do tráfico e a busca por cooperação internacional-, penso que a Polícia Federal pode vir a enfraquecer as organizações, não só no Brasil, mas em todo o mundo.”

 

A tecnologia também desempenhará um papel fundamental

"Sem tecnologia, essa luta é impossível.”

 "A Polícia Federal tem poucos recursos humanos, então precisamos de tecnologia para começar a investigação. Precisamos de tecnologia para dar sequência à investigação. Você precisa de tecnologia depois de prender os chefes do tráfico e depois de obter as bases de dados dos criminosos, porque você pode precisar seguir mais evidências.”

O treinamento também é fundamental para garantir que os membros de sua equipe comecem a trabalhar com tecnologia mais atualizada, ficando à frente dos chefes do tráfico, que estão se tornando cada vez mais sofisticados em esconder suas transações ilícitas e fundos.

Quando perguntado sobre o que o motiva a vir trabalhar todos os dias, Secco sorriu e olhou para o horizonte, por um momento. "Eu tive um sonho", começou ele,” e percebi esse sonho porque minha motivação é fazer o meu melhor – fazer o meu melhor por mim e fazer o meu melhor pelo meu país. E quando vejo que uma grande organização criminosa é desmantelada e um grande chefe é preso, aí é quando você vê que a única tarefa que ocupa seus dias se torna realidade, esta é minha motivação".